De grão em grão… As coleções são um típico caso em que vale o velho ditado. Começam com uma peça e aos poucos vão se encorpando. Até que chega uma hora em que, já volumosas, é preciso decidir o que fazer com elas. Muitas exigem que os objetos fiquem bem guardados, como os selos, que repousam em pastas com divisórias individuais, dentro de armários à prova de intempéries. Há até coleções particulares tão completas que se transformam em museu, como aconteceu com o Museu dos Ramones, em Berlim. Outras não só se integram ao apartamento ou à casa como ditam como será a decoração da sala, do quarto ou até mesmo de todo o imóvel. E os artigos são os mais variados possíveis — a preferência por juntar vários itens vai desde as clássicas latinhas e garrafas de cerveja até os engraçados pinguins.
É o caso da arquiteta Dorys Daher, que começou a colecionar pinguins por conta de um espetáculo musical chamado “Pode ser cafona, mas é tão bonitinho…” No final de cada show, a artista presenteava alguém da plateia com um pinguim de cerâmica, típica imagem da fofurice cafona, e separava um para levar para casa. Após 18 anos de espetáculo com vários brindes e muitos presentes com a ave preta e branca, a arquiteta teve de separar uma prateleira só para eles — além, claro, do topo da geladeira, que também é dominado pelos cafoninhas.
Se para ser um ambiente aconchegante a casa tem de ter a cara do dono, decorá-la com coleções parece ser o caminho mais seguro para deixá-la cheia de personalidade. O administrador João Paulo Andrade iniciou há pouco mais de um ano uma coleção de garrafas de cerveja com o irmão Thiago. A ideia surgiu quando a família estava construindo uma casa de campo em Gravatá (Pernambuco). Hoje, são mais de 70 garrafas de cerveja em prateleiras especialmente desenhadas para elas, em uma das paredes da sala da casa.
Não foi a primeira vez em que a família tomou gosto por acumular quinquilharias. O próprio João Paulo já colecionara latinhas de cerveja quando era criança, mas desistiu por conta da ferrugem e das constantes quedas: “As latinhas ficam vazias, era mais difícil de arrumar e elas viviam caindo por serem muito leves”. Por isso decidiu agora apostar nas garrafas, e cheias de cerveja. A mais exótica veio de Londres mais é chinesa e a maioria, assim como a preferência nacional, é do tipo pilsen.
Ele tem também uma coleção de elefantes de cerâmica — diz a crença popular que, o animal, quando posicionado de costas para a porta de entrada da casa, traz boa sorte aos moradores. A mãe de João Paulo e Thiago, Tereza, foi quem incentivou a coleção de garrafas, e também tem seu hobby: reúne papais-noéis que só saem do armário no Natal, como tem que ser.
Outro clássico das coleções são os carrinhos. Mas nada de brincar com os de Michel Rost e Luiz Alberto Pandini, eles mal saem da caixa. Jornalista, Pandini começou seu hobby com miniaturas de Porsche. Como faz assessoria de imprensa da marca, recebia alguns modelos. Atualmente, tem entre 50 e 80 carrinhos de escala 1:43 e outros poucos de escala 1:18. “Não chega a ser uma coleção, não tenho uma lista de desejos. Se eu vejo, gosto e acho o preço ok, eu compro. Mas não é qualquer carrinho, prefiro os modelos da Porsche, alguns da F1 e alguns da Indy usados na década de 90”, explica. Seu filho, Gabriel, só pode brincar com os carrinhos sob supervisão paterna. E bem rapidinho. “Ele já entendeu que não é brinquedo. Tem peças pequenas e se quebrar, já era”. O jeito foi Gabriel investir em sua própria coleção, de carrinhos Hot Wheels — já tem de 200 a 300 modelos.
Rost, empresário e corretor, tem uma história de amor com a Fórmula 1. Já que não pôde ser piloto, alimenta sua paixão gravando todas as corridas desde a década de 70 e foi a todos o Grandes Prêmios do Brasil entre 1980 e 1991. Quando está fora do Brasil, sempre dá um jeitinho de ver algum Grande Prêmio, chegou até a arrumar emprego em uma equipe alemã só para poder ver as corridas bem de perto, da área dos boxes.
Demorou nove anos para decorar seu apartamento com base na F-1. Os lustres são pneus ou rodas de carros de verdade; algumas rodas viraram mesa de centro. O bico de um carro McLaren foi usado como um quadro, no hall de entrada, e a asa traseira de uma Lotus foi para a parede da sala de jantar. A ponta de um Benetton serve como arandela do quarto. E o quadriculado da bandeira de chegada está espalhado por almofadas, edredons e tapetes.
O apartamento foi pensado todo em branco e preto, para combinar com a tal bandeira. Os mais de 1.400 kits para montar, réplicas fieis das máquinas, é ele mesmo quem faz, em escala 1:20. Cada um deles custa cerca de R$ 300. Rost prefere nem calcular quanto gastou para transformar sua casa num templo da F1. Para adquirir parte dos acessórios que hoje compõem a decoração, circulava pelos boxes pedindo peças soltas. Também contou com a ajuda de leilões virtuais na Suécia e na Espanha. “Para o colecionador, a internet é uma porta aberta para o mundo”, agradece.
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