Foram necessários dois anos de pesquisa e nove meses de obras até que a arquiteta Consuelo Jorge fizesse sua casa do jeito que mais agravada a ela, à família — e ao meio ambiente. Sua residência no Campo Belo, bairro no centro-sul de São Paulo, é conhecida por pesquisadores e adeptos da arquitetura sustentável e chegou a ser visitada pelo Instituto de Pesquisas Tecnológicas da USP.
As ideias vieram de projetos do mundo inteiro e foram adaptadas por Consuelo e seu marido, o engenheiro Sérgio Cordeiro, para o terreno e os materiais disponíveis na época da construção, há cinco anos.
Para montar o esqueleto da residência, ela optou por usar estruturas metálicas, que geram menos resíduos que os pilares de concreto. “A estrutura metálica também é um sistema de sustentabilidade, pois evita o desperdício de material. Além de deixar a obra mais rápida”, explica a arquiteta. Pouca alvenaria foi utilizada, e muitas paredes são de vidro. “É uma obra limpa”, diz Consuelo.
Para manter a temperatura agradável no interior da casa, as janelas foram posicionadas de maneira a facilitar a circulação do ar, criando ventilação cruzada. O telhado é formado por uma superfície externa de alumínio e uma camada interna de lã de rocha, material que funciona como isolante térmico e acústico. A proteção ainda é reforçada pelo gesso que faz o acabamento do teto e ajuda a preservar o conforto térmico.
O único ar-condicionado eletrônico está instalado no quarto do casal – e, diz Consuelo, o aparelho está acumulando poeira por falta de uso. Para refrescar os ambientes, ela desenvolveu um sistema ecológico que leva o ar fresco de fora para dentro da residência.
Para explicar o funcionamento desse ar condicionado ecológico, Consuelo o compara a uma cachoeira. O ar que circunda a cascata construída do lado de fora da casa é filtrado e resfriado. Depois, é conduzido à sala por uma tubulação que passa por baixo do espelho d’água da fonte. Um ventilador no final dessa tubulação joga o ar , no interior da residência — em geral, 2°C a 5°C menor que a temperatura ambiente.
O aquecedor também é ecológico. Foi desenvolvido ao redor da lareira: o ar entra na câmara que a envolve, é aquecido pela chaminé, e devolvido por um motor com ventilação.
Ainda para diminuir o consumo de energia, Consuelo Jorge instalou dimerizadores em todas as lâmpadas da casa, deixando-as em baixa voltagem. Para não esquecer nenhuma delas acesa antes de dormir, colocou um interruptor na cabeceira da cama que apaga todas as luzes da residência. Uma ideia simples e muito prática.
A preocupação com o melhor aproveitamento dos recursos naturais levou Consuelo e seu marido a desenvolverem sistemas de reutilização da água. A dos chuveiros (aquecida por painéis solares), a das pias de lavabos e da máquina de lavar roupas é reutilizada nos vasos sanitários: ela é conduzida a caixas d’água sob o deque da casa, onde é filtrada, clorada, desinfetada e bombeada para um reservatório.
A água da chuva também é aproveitada. Como os primeiros minutos de chuva têm o pH mais elevado e levam a sujeira do telhado para o reservatório – e essas impurezas prejudicariam os tanques usados no tratamento da água – Sérgio Cordeiro calculou quantos litros deveriam ser descartados. Assim, construiu uma caixa que acumula apenas a água da chuva que chega mais limpa e pode ser tratada e reutilizada nos jardins.
Consuelo comenta que na época, há cinco anos, era mais difícil encontrar soluções ecológicas para a casa, mas que isso está mudando. “Acho que as pessoas não fazem construções ecológicas por falta de informação”, diz. E, apesar de a obra ter um custo mais alto, seus cálculos demonstram que o investimento inicial retornou em contas mais baixas e foi compensado nesses cinco anos. “Acho que é uma questão de consciência. Mas a nova geração já está mais preocupada. Minha filha de três anos, por exemplo, fica chocada quando vê alguém desperdiçando água”.
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